Em 2018, um pequeno anel de cobre rapidamente ganhou manchetes internacionais com sua inscrição grega cativante de somente uma palavra:
Πιλάτο(υ) – de Pilato.
Embora grande parte da cobertura inicial da notícia indicasse que o anel poderia ter pertencido ao próprio Pilatos, a maioria dos estudiosos foi muito mais cautelosa, sugerindo que provavelmente pertencia a alguém da administração de Pilatos.
O anel de sinete que (quase) todo mundo pensou que fosse de Pôncio Pilatos. Mas não foi
No entanto, um novo estudo publicado na revista ‘Atiqot’ argumenta que o anel não tem nenhuma conexão com Pôncio Pilatos.
Descoberto originalmente nas escavações de Gideon Foerster, em Herodium, entre 1968 e 1969, a inscrição do anel só pôde ser lida décadas depois, após a limpeza e fotografia com métodos digitais avançados.
O próprio anel era feito de cobre simples e mal trabalhado, com defeitos no metal que dificultavam a leitura da inscrição. Ele tem a forma de uma cratera sem alças (um recipiente para vinho) com uma linha de texto grego em cada lado.
De acordo com a publicação original no Israel Exploration Journal, a inscrição grega diz simplesmente “Pilato”, o genitivo do nome Pilatos, traduzido como “de Pilatos”.
A leitura proposta da inscrição — Πιλάτο(υ) — é considerada incerta, especialmente as letras ΠΙ, que são descritas como “perturbadas por um defeito na superfície do metal”.
A inscrição foi analisada usando RTI (Reflectance Transformation Imaging), mas, mesmo assim, a leitura final “de Pilato” baseia-se na adição de um ípsilon após ɅATO, o que é raro na região da Judeia Antiga.
Embora a equipe original tenha sido cautelosa em sua interpretação, sugeriram que o anel poderia ter sido fabricado em uma oficina local para um membro da administração de Pôncio Pilatos, o procurador romano da Judeia que condenou Jesus à morte, sob o reinado do imperador Tibério.
A dúvida dos professores Werner Eck e Avner Ecker
Os autores do novo estudo, os professores Werner Eck e Avner Ecker, respectivamente da Universidade de Colônia e da Universidade Bar Ilan, não estão convencidos.
De acordo com a dupla, a leitura “Pilato” é possível, mas muito improvável, devido ao debate em torno da identidade de várias letras e se as duas linhas de texto sequer formam uma única palavra.
Além disso, mesmo que a leitura esteja correta, é improvável que a inscrição se refira ao famoso romano.
Como discutido por Eck e Ecker, seria muito incomum para um procurador romano de alta patente usar o grego para uma inscrição administrativa, muito menos uma inscrição grega tão mal escrita.
É verdade que a Pedra de Pilatos, descoberta em Cesareia Maritima, foi escrita em latim, em vez do grego, embora várias moedas do período tenham inscrições gregas.
Um símbolo judaico, não romano
Além disso, o uso de metal de baixa qualidade e a inclusão da forma de uma cratera, que na época servia como um símbolo judaico e não romano, são motivos adicionais para se duvidar de uma conexão entre o anel e a administração romana.
Apesar de discordarem da publicação original, Eck e Ecker admitem não serem capazes de oferecer uma interpretação alternativa. No entanto, eles propõem que as duas linhas devam ser entendidas como formando palavras distintas, sendo pelo menos uma delas uma abreviatura e não um único nome.

Independentemente de como o anel de Pilatos seja interpretado, as evidências históricas de um procurador romano com o nome de Pôncio Pilatos são substanciais.
Além das referências do Novo Testamento (e da Pedra de Pilatos mencionada acima), Pilatos é conhecido através da obra do filósofo judeu Fílon de Alexandria (Embaixada a Gaio), dos escritos do historiador judeu Flávio Josefo (Guerras Judaicas), bem como de muitos textos do segundo século.
No final, as evidências que apoiam a existência de Pilatos são mais substanciais do que para a maioria dos governadores provinciais do primeiro século, mesmo sem o anel de Pilatos.

Referência bibliográfica: Site de Biblical Archaeology.
Para quem deseja aprofundar mais sobre o assunto: Not a “Signet Ring” of Pontius Pilatus, de Werner Eck e Avner Ecker.
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