✡️ A importância da presença dos hebreus na história de Veneza


Dicas de Veneza

Em 17 de junho de 2016, participei do vernissage da mostra dedicada à importância histórico-cultural dos hebreus em Veneza, cuja sede foi o Palácio Ducal veneziano.

Como apreciadora da história e da cultura hebraica, não podia deixar de escrever sobre a importância da presença dos hebreus na história de Veneza, principalmente pela comemoração, em 2016, dos 500 anos de fundação do gueto hebraico veneziano, o primeiro gueto da Europa.

A importância da presença dos hebreus na história de Veneza: comércio, ciência, cultura, etc.


O lugar era delimitado por duas portas que, como tinha precisado o Senado em 29 de março de 1516, seriam abertas de manhã ao som da “marangona” (o sino de São Marcos que ditava os ritmos da atividade urbana) e fechadas à meia-noite por quatro guardiões cristãos, pagos pelos judeus e que deveriam morar no próprio local, sem ter família para poder se dedicar melhor à atividade de controle.

Além disso, seria necessário realizar dos muros altos (que, todavia, não foram nunca construídos) para fechar a área por parte dos rios que a teriam circundada, murando todas as ribas que ali se abriam. Dois barcos do Conselho dos Dez, com guardiões pagos pelos novos “castellani”, circularão à noite no canal em torno da ilha para garantir a segurança. Em 1º de abril sucessivo, a mesma “ordem” foi proclamada no Rialto e em relação às pontes de todas os quarteirões urbanos onde moravam os judeus.

Homenagem ao gueto mais antigo da Europa

Organizada em ocasião dos quinhentos anos de instituição do Gueto de Veneza, a mostra “Venezia, gli ebrei e l’Europa 1516-2016” (Veneza, os hebreus e a Europa 1516-2016, tradução livre) descreveu os processos que foram a base da criação, realização e das transformações do primeiro “recinto” do mundo destinado aos hebreus.

Ao mesmo tempo, o panorama se alargou, envolvendo as relações estabelecidas com o resto da cidade e com outros quarteirões hebraicos (e não só), italianos e europeu para destacar a riqueza dos vínculos entre os hebreus de Veneza e os hebreus e a sociedade civil nos diferentes períodos da sua longa permanência na laguna, na área vêneta e na área europeia e mediterrânea.

A intenção foi, na verdade, uma maior consciência das diversidades culturais existentes na Veneza cosmopolita do início do século XVI e da mistura das habilidades, conhecimentos, costumes que constituem até hoje o seu principal patrimônio.

História dos hebreus em Veneza: contrato de casamento judeu

“Contrato matrimonial hebraico”, 1723. Museu Correr, Veneza. Imagem: Visit Muve.


Hebreus em Veneza, uma cidade cosmopolita

Não foi somente um trabalho de pesquisa sobre a área específica dos três guetos (Novo, Velho e Novíssimo), mas também uma reflexão sobre as trocas culturais e linguísticas, as habilidades artesanais e as profissões que a comunidade hebraica dividiu com a população cristã e as outras minorias presentes em um centro mercantil de importância extraordinária.

O arco cronológico tomado em consideração foi além da queda da República e a abertura das portas por ordem de Napoleão Bonaparte: a mostra também considerou o papel dos hebreus na idade da assimilação e no curso do século XX.


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Relação entre a República Vêneta e as comunidades estrangeiras no século XVI

Nas primeiras décadas do século XVI, a República Vêneta tinha colocado em ato uma estratégia urbana de acolhimento, oferta de garantias e, contemporaneamente, de vigilância, mais ou menos rígida, também para com outras comunidades nacionais e religiosas, importantes para as próprias atividades econômicas como as pessoas do Norte (com o Fondaco dei Tedeschi), os gregos ortodoxos (com a concessão de se construir uma igreja e um colégio pagos por eles próprios) e, pouco a pouco, os albaneses, os persianos, os turcos.

História da comunidade judaica em Veneza

Os hebreus contribuíram para o enriquecimento de Veneza

Os hebreus, como as outras minorias, eram “preciosos” para a Sereníssima (como se lê em alguns documentos): as suas magistraturas, alguns nobres e o próprio doge Leonardo Loredan, que era ‘príncipe” no momento do decreto instituído (29 de março de 1516), eram perfeitamente conscientes da situação.

Apesar disso, Veneza, que tinha permitido aos hebreus presentes no seu próprio território – quando a Europa também os estava caçando depois dos notos decretos de expulsão da Espanha (1492) e de Portugal (1496) – de entrar na cidade como refugiados de guerra, após as dramáticas consequências da liga dos Cambrais e da derrota de Agnadello, logo se pôs o problema de como tratar a minoria hebraica.

Presença dos Hebreus em Veneza: Doge Leonardo Loredan

“Retrato do doge Leonardo Loredan” de Vittore Carpaccio, 1501-1505. Museu Correr, Veneza. Imagem: Visit Muve.


1516-2016: 500 anos do Gueto Hebraico de Veneza, o primeiro gueto da Europa


A escolha de não expulsar os hebreus, mas de mantê-los dentro do gueto, foi vivida como o mal menor e o fechamento, uma evidente discriminação, terminou por se transformar também em uma defesa útil porque os hebreus, sujeito politicamente fraco fora dos muros, tornaram-se autônomos no interior do gueto, quase proprietários de suas ações e, em muitos casos, bem mais que tantos moradores e súditos que viviam à completa mercê do doge, do príncipe, do papa ou do rei.

Hazzer = gueto

Em Veneza, este Hazzer (palavra hebraica para definir o recinto), Gueto – tomado em sentido negativo em toda a Europa como realidade física e como termo – transformou-se pouco a pouco em uma instituição quase por si, “um escudo”, como escreve Riccardo Calimani:

que mesmo na precariedade difundida, dispunha, apesar de tudo, de poderes e privilégios que os permitiam serem ouvidos e de tratarem com os próprios interlocutores do lado de fora, com uma liberdade de iniciativa  surpreendente.

Presença dos hebreus na história de Veneza

“Nobile al banco” de Giovanni Grevembroch (1731-1808). Biblioteca do Museu Correr, Veneza. Imagem: Visit Muve.

Cosmopolita no seu interior – onde vieram a conviver hebreus alemães e italianos, hebreus levantinos, do oeste e portugueses – o Gueto de Veneza foi, assim, uma realidade fortemente permeável, em constante interação com o externo e in primis com a cidade lagunar, esta última extraordinariamente multinacional e multiétnica, por convicção ou pragmatismo.

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Como chegar ao Gueto Hebraico de Veneza

Da estação ferroviária: Caminhar em direção à Lista di Spagna + atravessar a Ponte delle Guglie + virar à esquerda: seguir as indicações para o gueto. São cerca de quize minutos de caminhada.

Da Praça de São Marcos: Pegar a rua principal que leva à Strada Nuova e prosseguir até Rio Terà S. Leonardo + seguir as indicações para o gueto. São cerca de quarenta e cinco minutos de caminhada.

Dica de uma Veneza Insólita: faça um tour privado em português pelo Gueto Hebraico de Veneza.

Lojinha de Veneza


*Texto baseado no release da mostra Veneza, gli Ebrei e l’Europa 1516-2016.

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VIAGEM NA ITÁLIA

Desde 2003, sou residente em Riccione, um balneário turístico na região Emília-Romanha. No fim de maio de 2013, decidi tirar da gaveta a ideia de escrever um blogue com dicas de viagem na Itália, divulgando, assim, o maravilhoso patrimônio artístico, cultural e paisagístico que só este país pode oferecer.

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